O amanhecer no Café do Lago: o último dia do outono

Acordar às três da manhã, percorrer 250 quilômetros e chegar antes do nascer do sol. Uma experiência vivida entre a neblina sobre o lago, o aroma do café recém-coado no fogão a lenha e a tranquilidade que transforma uma simples visita em uma lembrança par

Redação Revista Receita de Turismo | 26/06/2026

O amanhecer no Café do Lago: o último dia do outono

A neblina cobre o lago nas primeiras horas da manhã, enquanto o Café do Lago desperta lentamente para receber os visitantes no último amanhecer do outono. Um cenário onde a natureza e a tranquilidade dão o tom do início de um novo dia. Acho, porém, que p

O último amanhecer do outono no Café do Lago


Uma experiência vivida entre a neblina, o café recém-coado, os sabores do campo e a promessa dos girassóis

Por Alexandre Richards 


Ainda eram três horas da manhã quando acordei.

Lá fora, Ribeirão Preto ainda dormia. A cidade permanecia em silêncio, mergulhada naquela quietude própria das madrugadas frias de fim de outono. Era sábado, 20 de junho de 2026, o último dia da estação. No domingo, 21 de junho, o inverno chegaria oficialmente ao Brasil.

Eu queria estar no Café do Lago nesse intervalo.

Queria viver a despedida do outono e, no dia seguinte, acompanhar o primeiro amanhecer do inverno naquele mesmo lugar. Não era apenas uma visita. Era uma experiência pensada para sentir como a natureza muda de tom quando uma estação termina e outra começa.

Chamei a Renata, minha companheira de vida e de viagens.

— Vamos embora.

Ainda sonolenta, ela estranhou:

— Está muito cedo.

Estava mesmo.

Mas eu queria sair naquele horário. Queria pegar a estrada ainda no escuro, chegar antes da abertura oficial, ver o Café do Lago despertando aos poucos e acompanhar os primeiros raios de sol entrando naquele salão que, poucas horas depois, estaria tomado por famílias, turistas, aromas, conversas e lembranças.

Saímos de Ribeirão Preto entre 3h15 e 3h30 da manhã.

A estrada ainda tinha cara de madrugada. Fizemos uma pequena parada em Leme, de quinze a vinte minutos, e seguimos viagem. Entre Ribeirão Preto e Elias Fausto são cerca de 250 quilômetros. Uma distância suficiente para deixar a rotina para trás e entrar, aos poucos, em outro ritmo.

Pouco depois das seis horas da manhã, chegamos ao Café do Lago.

O local ainda não estava aberto ao público. A visitação começaria às sete horas. Ali, naquele primeiro momento, estavam apenas os funcionários, preparando tudo para receber os visitantes do dia.

A neblina envolvia o lago de forma suave. Bem menos intensa do que estaria no domingo, já no primeiro amanhecer do inverno, mas suficiente para transformar a paisagem. Havia um frio gostoso, ameno, suportável, desses que combinam com campo, fogão a lenha e café quente.

Desci do carro e comecei a observar.

Ao longe, o lago aparecia coberto por uma névoa fina. Mais atrás, os cavalos já se movimentavam, como se também se preparassem para receber os primeiros turistas. O campo de futebol estava sendo demarcado, com suas linhas ganhando aquele branco vivo, cuidado que mostra como cada detalhe é tratado com atenção.

Foi então que uma cena me chamou a atenção.

Os peixes saltavam no lago.

E eram muitos.

Pulavam como se participassem daquele momento. Na minha imaginação, pareciam se despedir do outono e dar boas-vindas ao inverno que chegaria no dia seguinte. Há momentos em que a natureza parece conversar com a gente. Aquele era um deles.

O sol ainda não havia vencido a neblina. Começava a surgir lá no fundo, discreto, meio escondido, criando uma luz bonita, quase tímida. A paisagem se abria em profundidade: o lago, a pequena mata ao fundo, a área das trilhas, os parreirais e, mais distante, uma plantação que eu ainda iria descobrir melhor naquela manhã.


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Antes de descer para explorar a propriedade, entrei no salão principal.

Lá dentro, o Café do Lago começava a nascer.

Os funcionários organizavam as mesas, preparavam os espaços, ajeitavam os pratos, cuidavam dos detalhes. Havia uma movimentação silenciosa e precisa. Cada pessoa parecia saber exatamente o que fazer.

No fogão a lenha, os primeiros alimentos começavam a ocupar seus lugares.

Pernil desfiado, pães tostados com muçarela, pão de queijo, pastéis, salsichas, esfihas e uma linguiça caipira que, confesso, está entre as coisas que mais gosto de comer ali. É uma linguiça diferente, de aparência mais clara, com cor de carne mesmo, sem aquele tom avermelhado forte que se vê em muitos produtos industrializados. Tem gosto de interior, de receita simples, de comida feita com cuidado.

E então vi o bule.

O tradicional bule esmaltado estava sobre o fogão a lenha, com café recém-coado.

Não resisti.

Mesmo antes do café ser oficialmente servido aos visitantes, peguei uma xícara e tomei aquele café quente, direto do fogão de lenha.

Há experiências que não precisam de explicação.

Aquele café, naquele horário, naquele frio, com o salão ainda sendo preparado e a neblina cobrindo o lago, era uma dessas experiências que marcam a vida da gente.

Enquanto tomava o café, observava a equipe trabalhando.

O que mais me chamou atenção foi o clima familiar. Não era apenas uma equipe montando mesas. Era gente trabalhando com alegria, com intimidade com o lugar, com naturalidade. As mesas compridas de madeira eram organizadas, o fogão a lenha se transformava numa verdadeira pista quente, a mesa de pudins ganhava forma, os bolos eram colocados no lugar, os pratos salgados apareciam um a um.

Tudo era preparado para que, quando os primeiros visitantes chegassem, encontrassem não apenas comida, mas acolhimento.

Naquele momento, nasceu outra pauta.

Preciso voltar para contar a história dos funcionários do Café do Lago. Porque um lugar não é feito apenas de paisagem. É feito também pelas pessoas que sustentam sua alma todos os dias.

Depois desse primeiro café, e já quase no horário da abertura, resolvi descer para conhecer mais de perto a área preparada, já com 80 mil girassóis e crescimento.

O salão principal tem uma rampa que leva em direção ao lago. Descemos por ali. O caminho segue entre dois espelhos d’água: de um lado, o grande lago que dá nome ao Café do Lago; do outro, um lago menor, mais discreto, mas igualmente bonito.

Seguimos em direção à mata e ao pomar.

Ao final do caminho, encontramos um pequeno pomar. A Renata, que gosta muito de natureza, entrou para observar tudo de perto. Eu preferi ficar do lado de fora da cerca, apenas contemplando.

Foi então que vi, a poucos metros, um pé de ponkan.

E nele havia uma fruta bonita, grande, madura, pronta para ser colhida.

Avisei a Renata.

Ela foi até lá e colheu a fruta.

Havia também alguns maracujás no chão e, um pouco mais atrás, pés de limão-cravo bastante carregados. Mas foi a ponkan que marcou aquele momento.

Renata descascou a fruta. Dividimos ao meio. Metade para ela, metade para mim.

Na primeira mordida, percebi que não era uma ponkan como essas que costumamos comprar no mercado. Muitas frutas chegam às prateleiras depois de colhidas verdes, transportadas por longas distâncias, amadurecendo no caminho. Aquela não. Aquela tinha gosto de fruta colhida no tempo certo.

Era doce, aromática, viva.

E me levou imediatamente para a infância.

Meu avô tinha uma chácara em Mirassol. Lá havia muitas árvores frutíferas: laranjas, tangerinas, ponkans, mangas entre outras. Aquele sabor me fez lembrar de dias simples, de infância, de fruta comida direto do pé, de uma época em que a gente talvez nem soubesse dar valor a essas pequenas riquezas.

Algumas memórias não voltam por fotografias.

Voltam pelo sabor.

Saímos do pomar e seguimos até a entrada da mata.

Confesso que ainda não fiz essa trilha. Fui apenas até o começo. A mata é densa, com raízes aparentes no chão e um caminho que parece guardar muitas histórias. Fiquei com vontade de entrar, mas deixei para a próxima visita.

Ao lado dessa pequena mata existe outro espaço com árvores frutíferas. Mais atrás, ficam os parreirais.

Caminhamos até lá.

Ainda era possível ver alguns cachos secos que permaneceram após a colheita. A uva plantada no Café do Lago não tem finalidade comercial. Ela existe para proporcionar aos visitantes uma experiência: colher, caminhar entre as videiras, sentir o campo de perto.

Os parreirais descansavam depois de uma safra recente e já pareciam se preparar silenciosamente para um novo ciclo, com previsão de nova colheita no fim do ano.

Atrás dos parreirais estava a plantação que eu havia visto ao longe.

Perguntei ao Liberato e ele confirmou: ali estavam cerca de 10 mil metros quadrados de girassóis, com aproximadamente oitenta mil pés plantados.

As plantas ainda estavam crescendo. Tinham algo em torno de 60 ou 70 centímetros de altura. Mesmo assim, já davam volume à paisagem. Era possível imaginar o que aquele espaço se tornaria poucas semanas depois.

Fiquei olhando e pensando na força silenciosa da natureza.

Como uma planta cresce tão rápido?

Como aquele campo, ainda verde, em 30 ou 35 dias estaria tomado por milhares de flores amarelas voltadas para o sol?

No final de julho, aquele lugar estará completamente diferente. Será um campo de girassóis aberto, vivo, iluminado, pronto para encantar visitantes e render imagens inesquecíveis.

E eu faço questão de voltar para registrar isso pessoalmente.

Sentei por alguns minutos à sombra de uma árvore.

Ali, em silêncio, fiquei pensando em como existem lugares mágicos no Brasil. Lugares simples, bonitos, profundos, que muitas vezes estão mais perto do que imaginamos.

A gente poderia viajar todas as semanas, durante uma vida inteira, e ainda assim não conheceria nem uma pequena fração dos lugares que o Brasil oferece.

O Café do Lago é um desses lugares.

Fica em Elias Fausto, no interior de São Paulo, com acesso possível para quem vem de Ribeirão Preto, Campinas, Indaiatuba, Sorocaba, São Paulo e tantas outras cidades da região. É um passeio que vale a pena para passar um dia inteiro, ou até um fim de semana, porque a experiência não termina na mesa do café.

Ela continua no lago, nas trilhas, nos parreirais, nos animais, nos pomares, no campo de girassóis que está por vir.

Na volta para o salão, encontrei os primeiros turistas que já haviam descido para conhecer a propriedade.

Cruzei com dois casais.

Cumprimentei.

Eles estavam felizes, rindo, conversando, fotografando. Caminhavam entre os parreirais, ora um fotografando o outro, ora parando para admirar. Era bonito de ver. Cada pessoa parecia encontrar ali o seu próprio motivo para guardar aquele momento.

Pensei em completar a volta ao redor do lago.

A volta inteira tem cerca de 1.200 metros. Eu já estava em uma parte avançada do caminho, mas resolvi voltar.

O café colonial já estava servido.

E, sinceramente, eu não resisti.

Quando retornei ao salão principal, o Café do Lago já vivia outro cenário.

As primeiras mesas estavam ocupadas. Alguns turistas já tomavam seus cafés. O ambiente que antes era silencioso, quase íntimo, agora ganhava vozes, risos e movimento.

Tudo estava organizado, esperando cada visitante daquele dia.

Olhei para aquele café colonial e pensei:

Agora é minha vez.

Mas havia uma pergunta difícil:

O que escolher entre quase cem opções?

Mesmo já tendo ido ao Café do Lago algumas vezes, acredito que ainda não consegui experimentar nem 20% do que é servido ali.

Fui direto ao fogão a lenha.

Dessa vez, não peguei café.

Escolhi o chocolate quente.

Ele estava em um bule ao lado do café. Servi uma porção generosa e voltei para a mesa. O chocolate era cremoso, quente, perfeito para aquela manhã fria de fim de outono.

Saboreei devagar.

Depois voltei ao salão para montar meu prato.

Deixei para depois a mesa de sucos, bolos, doces, pudins e frutas. Naquele momento, o fogão a lenha me chamava mais forte.

Peguei a linguiça caipira, uma das minhas preferidas.

Peguei algumas esfihas.

Vi os pastéis dourados no canto do fogão. Normalmente não costumo pegá-los, mas naquele dia eles chamaram minha atenção. Peguei dois ou três.

Passei pelo pernil desfiado e pelos pães, mas deixei para uma próxima rodada.

Ali também estavam os caldos, servidos especialmente nessa época mais fria.

Naquele dia havia caldo de mandioca, caldo verde e caldo de cabotiá.

Escolhi o caldo de mandioca e o de cabotiá. Misturei os dois na mesma cumbuca. Acrescentei pimenta verde e finalizei com queijo ralado. O caldo ficou ainda mais cremoso, mais denso, mais reconfortante.

Era exatamente o tipo de comida que combina com o frio do campo.

No caminho para a mesa, fiz outra parada.

Peguei um copo do suco de açaí com morango.

Mesmo com frio, não consegui deixar passar. É um dos mais pedidos do Café do Lago e, confesso, o meu preferido.

Voltei à mesa com uma combinação curiosa: caldo quente, linguiça caipira, esfihas, pastéis, dadinhos de tapioca e um suco gelado de açaí com morango.

Parece improvável.

Mas no Café do Lago funciona.

Depois ainda voltei para pegar frutas. Melancia, melão e outras opções encerraram aquela primeira etapa da refeição.

E digo primeira etapa porque no Café do Lago o café colonial não é uma refeição comum.

Ele é servido das sete horas da manhã até as duas da tarde. E a experiência acontece em ciclos. Você come um pouco, caminha, visita o lago, observa os animais, passeia pelos parreirais, descansa, fotografa, conversa e depois volta para experimentar mais alguma coisa.

Não é apenas um café.

É um passeio inteiro.

É por isso que o Café do Lago não pode ser explicado apenas pela quantidade de pratos, pelos sabores ou pela beleza da propriedade.

Ele precisa ser vivido.

Quando chegou o momento de ir embora, o sol já havia dominado completamente a paisagem.

A neblina tinha desaparecido.

O lago estava claro.

Os jardins estavam cheios de visitantes.

O silêncio das primeiras horas havia dado lugar à alegria de famílias, casais e grupos de amigos que escolheram passar aquele sábado em meio à natureza.

O último amanhecer do outono chegava ao fim.

Mas a minha experiência ainda não.

Deixei Elias Fausto e segui para Indaiatuba, onde passaria a tarde e a noite no hotel.

A ideia já estava definida: voltar no dia seguinte, novamente nas primeiras horas da manhã, para registrar o primeiro amanhecer do inverno no Café do Lago.

Essa segunda experiência rendeu outra reportagem, já publicada no portal do Café do Lago Colonial.

Enquanto seguia viagem, pensei que algumas visitas terminam quando entramos no carro.

Outras continuam vivas dentro da gente.

O Café do Lago é um desses lugares.

Talvez porque ali o tempo passe mais devagar.

Talvez porque a natureza nos obrigue a prestar atenção em detalhes que a pressa normalmente apaga.

Talvez porque um café recém-coado no fogão a lenha, uma fruta colhida no pé, uma neblina sobre o lago, peixes saltando na água e girassóis prestes a florescer sejam pequenas coisas que, juntas, formam uma grande memória.

Foi exatamente por isso que eu voltei no dia seguinte.

E, olhando agora para aquelas duas manhãs — o último amanhecer do outono e o primeiro amanhecer do inverno — percebo que elas contam uma única história.

A história de um lugar onde cada estação transforma a paisagem, mas preserva o essencial.

A sensação de acolhimento.

A simplicidade do campo.

O sabor da comida feita com cuidado.

E aquela vontade silenciosa de ficar mais um pouco.

Algumas viagens terminam quando voltamos para casa.

Outras continuam vivas na memória.

O amanhecer no Café do Lago é uma delas.

 

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Chave Stein – Cardeal, Elias Fausto/SP (2 km de estrada de terra – prefira o acesso pela Estrada Municipal de Elias Fausto)

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